Existem perspectivas históricas diversas, que dão as variadas percepções de História: a História Linear; a História Espiral; A História Cíclica; a História-Teia... Falando especificamente da História Cíclica, muito se pode comparar e fazer analogias no campo da História, desde que se tenha em mente de que são didáticas, são instigantes, mas não constituem verdade ou absoluta certeza, evitando anacronismos de valores.
Mas esse, embora seja um blog de História, não é um academicista, então temos mais liberdade:
Nas últimas semanas, presenciamos uma crise sem precedentes na curta história da Fórmula 1, que possui várias histórias, mas nada igual nos grandes acontecimentos estruturais. A guerra entre A FIA de Max Mosley e a FOTA, visivelmente capitaneada pela Ferrari (ou por Luca di Montezemolo), entraram em guerra pelos direitos de decisão do corpo regulamentar da categoria. Com diversos interesses em jogo, para muito além do esporte em si, propriamente dito. Os fãs acompanharam momentos tensos, que culminaram com a "morte" da categoria, com o racha. E depois de muitas acusações pesadas dos dois lados, o conflito teve um "fim" (há quem diga que por Montezemolo ter chamado Mosley de ditador, esse deu um piti e disse que a FOTA está tentando enganar a mídia veiculando notícias falsas, de que Mosley estaria afastado da FIA e que não se envolveria mais com F1.
No contexto da Grécia Arcaica, entrando na Clássica, houveram outros "ditadores"...ou tiranos. Crucificado por uma história que defende a democracia a qualquer custo, sem analisar as implicações dessa palavra (que foi imbuída de um sentido positivo, como explicaremos; calma, antes de me trucidar, é melhor ler o post todo); analisado e revisto (até exageradamente) pelos marxistas comunistas, Drácon representou os interesses de um lado (os comerciantes demiurgos locais, enriquecidos, mas afastados do poder central); e Clístenes, que foi fortalecido pela conjuntura de poder dos eupátridas (a elite dominante, a elite da terra fértil e proprietária de escravos).
As medidas de Drácon iriam totalmente contra os interesses dos eupátridas; Drácon era apoiado pelos potentados comerciais menores, e tinha leis muito rígidas (penas de morte, exclusão), mas outras medidas menos elitistas (tirar o poder absoluto dos eupátridas para o Estado ateniense, aliviando o peso sobre a população mais pobre, além de melhor distribuição dos alimentos para estas populações).
A elite eupátrida, ciente do perigo do TIRANO (tirania, poder que emana do povo), que tinha certo apoio popular e dos comerciantes locais, impôs um aristocrata no poder, Sólon. O que se revelou um erro, pois ele continuou com as medidas de Drácon, e ainda alargou, extinguindo a escravidão por dívidas, abonou as dívidas de hipoteca, favoreceu aos ricos, estipulando a plutocracia (poder de decisão e participação política os pluto (ricos), os comerciantes. E ainda estimulou o desenvolvimento comercial, dando as bases para a democracia ateniense, mas sem dar todo o poder à elite inerte. Esta conseguiu derrubá-lo, e colocar Clístenes no lugar. E instituiu a democracia (governo dos cidadãos, do povo), o que p/ vc deve soar ótimo. Será mesmo ótimo?
Quem eram os cidadãos: a elite,e alguns comerciantes que conseguiram negociar com a elite e aproveitaram as medidas de Sólon. A cidadania era de poucos, ou sjea, o poder de decisão continuou na mão de todos, mas a democracia vez ou outra na história é tomada como valor negativo (pelo próprios elitistas), porque para os contestadores (revolucionários ou não), a democracia é um valor popular, positivo. Contudo, os que hoje defendem a democracia, seja na FOTA ou não, estão nas esferas de poder, para poucos. Ou inventamos outra democracia, que seja de fato um poder para todos, ou a democracia é uma palavra historicamente fadada ao fracasso.
E onde isso entra na Fórmula 1? Mosley e Ecclestone são representantes de seus próprios interesses, e trocam de papel, entre Sólon e Drácon. Os da FOTA representam a elite do esporte, que se considera a "alma" da Fórmula 1, retomando discursos democráticos e frases de efeito. Bom, ouvir o telespectador, tirar o poder do esporte de meia dúzia de gatos pingados que dominam duas instituições de grande poder (FIA e FOM) é sem dúvida louvável. Mas daí a trocar o poder uma democracia, na qual o poder realmente fica na mão de poucos, que cada vez mais se enriquecem em cima de um esporte que nunca lhes pertenceu, é possível de se defender? Ah, como é. Tanto que muitos saíram abertamente defendendo a FOTA, esperando cair o poder do tirano, do ditador. Sem cair no anacronismo, mas é viável essa analogia? Eu creio que sim.
Eu fico na minha postura: trocar seis por meia dúzia é de lascar. P/ mim, ver novas equipes e como elas vão se comportar no começo vai ser um barato. Ver grandes disputas, mas dentro do esporte, ver novas equipes brigando pau a pau com outras superfaturadas é o maior barato. E gostaria muito que a "nova Fórmula 1" me permitisse ver isso.
Ps: Clístenes passou um ano e meio no poder, depois Atenas passou por uma série de legisladores, novos ditadores, novos elitistas no poder, quase 50 anos até se reestabilizar. Como vcs fariam uma analogia com os últimos acontecimentos da F1? E com o futuro dela? Será possível fazer analogias assim ou é forçoso? Opinem!